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Disciplina de Portugus  -   Francisca Ferrinho, 8.A





Permaneo virada para a janela e observo lentamente a lua a desaparecer, embora
ainda no haja sinais dos primeiros raios de luz. Tento abstrair-me das imagens distantes, mas
ainda precisas, que teimam em invadir os pensamentos de uma adolescente dramtica,
enquanto o meu crebro suplica para que feche os olhos e apenas as deixe espairecer.
Embora contrariada, o desejo de fugir da realidade, refugiando-me nas intensas
memrias passadas, apodera-se de mim. Quando dou por mim, no vejo nada, a no ser a
escurido melanclica do vazio de uma iluso. Neste momento, nem o brilho ofuscante das
estrelas, momentos antes, visveis no negro imponente da noite, consegue penetrar o tenso
esprito que acaba de partir para o interior da minha mente. Subitamente, um foco de luz
brilhante confunde-me a viso e, mesmo no sendo tocada, apercebo-me de ser puxada na
sua direo.
A grande cama em que h pouco me deixara repousar d agora lugar a um amplo
recinto coberto por finos gros de areia, to vasto quanto um razovel salo de festas. Em
frente, ergue-se um humilde edifcio lotado de pequenas crianas ingnuas e animadas,
saciadas pela liberdade prazerosa de escapar ao domnio e ao controlo de adultos obstinados
e taciturnos. Apercebo-me de que ainda estou imvel no lar que me conhecido, e que os
meus olhos, deveras enfraquecidos, continuam selados, mas a fantasia com que me deparo
a mais ntida e tentadora que j conseguira reviver. Vejo as noites e os dias a passarem
velocidade da luz, sinto-me a aproximar-me daquela areia to volumosa Porm, os meus
pequenos braos no me permitem alcan-la sem me esforar. J no tenho longos e lisos
fios loiros a tocarem-me nos cotovelos, mas uma pequena minoria a sobrepor-se no meu
campo de viso reduzido e, no meu rosto, agora quase perfeito, estampa-se um esbelto
sorriso jovial e radiante.
Caminho ao longo do terreno sem um destino concreto definido, estou inquieta e
receosa pelo facto de a minha nica companhia ser a solido, at que, de repente, uma
palma no ar, particularmente amigvel, apela minha ateno. Dirijo-me para si, numa
tentativa falhada de reconhecer o rosto afvel que me aborda, visto que, em tal espao, nada
nem ningum me so conhecidos. Observo minuciosamente cada detalhe desta linda rapariga
morena. O seu rosto ligeiramente oval com destaque para o visvel bronze que apanhou, e
est repleta de delicados caracis curtos, muito volumosos, que lhe cobrem parte da cara,
saltitando a cada breve movimento que realiza. O abismo dos seus belos olhos castanhos
encara-me intensamente com brilho cheios de euforia e esperana, certamente a tentar
decifrar a minha complexa expresso facial. Aproxima-se lentamente de mim, parecendo
estudar cada pensamento que me ocorre medida que se desloca para mais perto, como se
estes estivessem a passar um a um num letreiro luminoso incorporado na minha testa.
Convida-me a juntar-me a ela, talvez por tambm se sentir sozinha. Por isso, esboo um lindo
sorriso em resposta ao seu convite. Sento-me, acomodando-me num espao de areia
disponvel, prximo da rapariga de cabelo encaracolado, quando dou de caras com a presena
de outra menina. Aparecida detrs da capela ao lado do pavimento, transporta uma mo
cheia de areia molhada com uma finalidade, pelo menos para mim, desconhecida. A florida
bandolete multicolor segura o seu cabelo liso e acastanhado, impedindo-o de balanar bem
frente dos seus olhos cor de avel. Alguns dos seus dentes da frente persistem em ficar
notoriamente salientes enquanto esta esboa milhares de sorrisos genuinamente alegres a
todos os que a abordam. Apresenta-se com um abrao aconchegante e estranhamente
reconfortante, ainda que meio acanhada, encostando-se a mim no minsculo lugar que resta.
a mais baixa das trs, embora perceba, pela tranquilidade da conversa entre as duas, que a
sua amizade j perdura por dias, verificando, assim, estar por minha conta.
O punhado de areia molhada, h pouco trazido nas mos da menina mais baixa, faz
agora parte de outros tantos, empilhados e moldados estrategicamente, na forma de uma
pirmide praticamente do meu tamanho. Olho em volta, e s assim noto a abrangncia desta
brincadeira por toda a caixa de areia, cheia de crianas agarradas ideia de terem a maior
construo; de buracos, molhos e diversidade de jogos entre todos; de amigos e amigas que
se aproximam ao mesmo tempo que se riem das desgraas uns dos outros. Quando dou por
mim, estamos as trs a brincar assim como os restantes que nos rodeiam. Vamos
acrescentando altura ao monte, que cresce cada vez mais em frente aos nossos olhos, at
precisarmos de nos pr em bicos de ps para alcanarmos o topo; a rapariga morena faz
piadas e adivinhas para nos entreter, fazendo-nos rir s gargalhadas como se nos
conhecssemos h meses, enquanto a menina mais baixa, embora ainda um pouco tmida, se
revela muito doce e prestvel.
Tudo o que sinto a paz e a alegria de ser criana e rir sem pensar no futuro e nas
dificuldades que este me reserva, sem a cabea a mil hora por dia e sem preocupaes com
opinies posteriores. Sem ter que me sufocar a enumerar as dezenas de coisas que j podia
ter feito enquanto descanso, sem a desconfiana constante em quem est ao nosso lado pelas
melhores razes e sem o transtorno de ser uma adolescente em pleno catico sculo XXI. Ser
criana o sonho de qualquer jovem hoje em dia, um desejo to melanclico, talvez por no
passar disso mesmo, um sonho.



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