Colocando a cassete da infância, muitos momentos percorrem a fita, saltando um, em
especial, à vista, pelas emoções vividas nessa altura.
Eram noites de verão, inundadas pela escuridão, mas com uma temperatura bastante
elevada. Saía eu, sem a idade de todos os dedos da mão, com o meu pai. Ia todo contente
buscar a garrafa de água à banca da cozinha em biquinhos de pés. Depois de colocada na
mochilinha, íamos os dois pela noite dentro, que nem aventureiros… Sim, era mesmo esse o
nome que eu dava! Era mais ou menos assim: “Papá, vamos fazer aventuras”. Sentia-me
mesmo uma mistura entre Indiana Jones, “parkoureiro” e o meu ídolo de infância, Jack
Sparrow.
Lá íamos os dois que nem dois irmãos, lado a lado. Saltávamos muros, percorríamos
florestas, subíamos colinas… Eu era a sombra do meu pai e ele era o meu sorriso.
Tantos filmes gravados… A cena principal foi aquela em que uma vez entrámos no
terraço de uma casa para podermos continuar o nosso percurso. Sentia-me livre!
A noite, o tempo e a vida paravam ao meu redor, quando, nessas noites incríveis, nos
debruçávamos no reflexo do rio. Era mágico! Enquanto o meu pai me enchia de histórias, eu
só pensava em não querer sair dali nunca mais. Os dois companheiros sentados na margem do
rio, a ouvir os grilos, a água a correr, e as próprias gargalhadas.
Depois de tudo isto, chegava a derradeira competição: quem conseguia atirar pedras
mais longe utilizando o ricochete na água?
Nessa altura, eu tinha as emoções à flor da pele… Na minha cabeça, quem ganhasse
era o campeão mundial…
Depois de imensas derrotas seguidas, lembro-me de que, um dia, fiz um lançamento
perfeito, com uma execução exímia… Sentia-me o maior! Naquele momento, eu era o rei do
mundo… Ninguém me podia parar!
Chegava a casa com um sorriso de orelha a orelha e contava tudo à minha mãe. De
peito inchado, exagerava em tudo o que dizia. Tal como crianças fazem, certo?!
Naquele momento, envergava ao peito a medalha imaginária de campeão mundial ou,
se quiserem, “o pequeno campeão do meu pai!”
Momentos incríveis! Não choro porque acabou, sorrio porque aconteceu…
|